Norte no topo é destaque nas letras de rap dos paraenses Dionísio e Flawess no EP ‘DISSNORTEADO’

O rap tem sua essência naturalmente política e busca assim, mudar o mundo através das denúncias das desigualdades sociais. O rap periférico reflete a realidade dos moradores das periferias e desempenha um papel educativo e crítico. A construção do Rap no Norte é um trabalho de muitas mãos, ainda que em diferentes cidades do país mantém o caráter político-social de resistência trazendo a realidade dos círculos periféricos que compõem a sociedade.

Eduardo Rocha e Herbert Ribeiro, isto é, “vulgo” Flawess e Dionísio, são artistas da cena emergente do rap paraense, moradores da Terra Firme (TF), periferia da cidade e inspiração de suas obras. Amigos de longa data, viram na pandemia uma oportunidade de produzir música sobre seus descontentamentos. Tendo Flawess no “beat”, Dionísio tece suas críticas em rimas que envolvem a particularidade do uso de gírias locais.

A cena local do rap paraense, nasce da influência da Black Music no povo preto rebelado, isto é, pessoas que buscam identificação e representatividade, visto que a cultura do Norte é deixada à margem das produções nacionais, e esse esquecimento atinge também o trabalho de quem está buscando visibilidade até mesmo no seu próprio estado, onde produções de fora ganham maior destaque.

 

 

Rima dos Cabanos: regionalidade e originalidade

A Cabanagem foi uma revolta popular ocorrida entre 1835 e 1840, na antiga província do Grão-Pará. Esse movimento teve como causa a extrema pobreza pela qual a região passava e o abandono político após a Independência do Brasil. Nesse sentido, vale pensar no EP ‘DISSNORTEADO’, no quesito do “espírito cabano” de crítica à desigualdade social. O nome do álbum vem de “DISS TRACK”, que é uma composição com intuito de criticar um personagem ou algo. Um exemplo deste modelo de fazer as rimas está presente nos versos de “Sulicídio” de Baco Exú do Blues, com participação de Diomedes. A música, além de criticar os mcs, tinha como principal finalidade tocar na ferida da centralização da cultura no Sudeste do país e chamou a atenção para outros locais que também faziam rap, como o Nordeste, o que se assemelha com as produções de DISSNORTEADO. O nome faz também analogia à expressão estar “desnorteado”, isto é, que perdeu a direção do norte, está desorientado. No contexto da produção, a perda é de visibilidade e palco para os nortistas.

 

 

Foto/Reprodução: Mel Mater

 

A equipe que trabalhou na elaboração do álbum, desde a produtora Magic Hit Records e as participações, todos são moradores de áreas periféricas em Belém, representantes das periferias organizadas que tomam consciência da sua força sendo um dos pilares desse projeto audiovisual. O processo de produção reuniu pessoas diferentes de cada área com o mesmo propósito de dar visibilidade ao Norte: produção
musical da Magic Hit e Flawess, composições e vozes de Dionísio, Thiane, CORRE4CP e Nicolas Maciel. E produção visual de Gerliton Eduardo, Mel Mater, Omar Reis e Ilustrasso.

O primeiro beat feito para o EP foi o da faixa “Dissnorteado”, o Dionísio tinha me mostrado a letra e eu sabia que precisava de um beat bem agressivo, com 808’s distorcidos, piano e solos de guitarra, as intervenções com matérias de jornal também ilustram essa mensagem mais agressiva que a faixa se propõe a debater. — Flawess

Com relação ao início do álbum, a faixa TF no Topo é a abertura do EP para simbolizar a periferia organizada em busca de representatividade da Região Norte. Boca de Lobo é a chegada, porque representa o amazônida vivendo sua cultura no dia a dia.

Ver que Dissnorteado chegou nos ouvidos que precisavam ouvir aquela mensagem é o mais gratificante de tudo isso. E chegou em pessoas que levaram essa mensagem pra todos os cantos, de todas as formas: ao mesmo tempo que toda todo dia aqui no Abrigo, na TF, já esteve em congresso em uma das mais tradicionais universidades do país. Acima de tudo sou grato a todo mundo que proporcionou isso e contribuiu de alguma forma. No fim das contas, Dissnorteado é isso, a expressão do pronome “nós”, união da galera que tava com esse grito na garganta e que se sentiu representado. É o processo de radicalização que todo jovem nortista, que todo artista nortista, que todo mundo que tem um corre no norte passa. Muitos ficam perdidos nesse caminho, também vejo Dissnorteado como uma bússola pra aqueles que estão desnorteados nesse sentido, de alguma forma. — Dionísio

 

As letras do álbum expõem o uso de gírias e dialetos paraenses que criam um “clima” de identificação e pertencimento. A inclusão das expressões regionais foi extremamente natural, sendo aspectos da fala dos artistas. O processo foi guiado pela vivência pessoal dos meninos, incorporando elementos aprendidos ao longo do tempo. Posteriormente, com retorno positivo da audiência, que se sentiu mais conectada à música devido a esses termos regionais, motivou os artistas a continuarem incorporando tais elementos nas demais faixas do álbum, não apenas se limitando a termos, mas também incluindo referências da cultura popular, buscando tudo aquilo que pudesse trazer identificação para o público local. Essa identificação, muitas vezes, é ausente quando se acessa uma playlist de trap e não se encontra alguém usando o mesmo vocabulário regional ou falando da mesma forma, afinal ninguém chia o “S” como os paraenses.

 

Cada beat do projeto possui uma personalidade única surge da inspiração em uma gama variada de gêneros, principalmente na música eletrônica popular brasileira, como o rap, o grime, o funk, o tecnomelody, o drill e o afrobeat. Suas influências incluem artistas como Skrillex, Tropkillaz, kLap, Deekapz, Karan, Klean, entre outros. Interessante para pensar, como os paraenses já nascem imersos na musicalidade, sendo por carimbó, melody, tecno brega, marcantes, aparelhagens, entre outros ritmos. Pensar na juventude mais politizada é pensar no consumo de rap.

 

O texto acima é de autoria da Jornalista Andreza Dias (UFPA), com base no seu artigo científico “Norte no topo: Rima, raça e regionalidade nas letras de rap do EP DISSNORTEADO (2022)”, apresentado no Congresso Nacional de Comunicação, INTERCOM, Minas Gerais, Belo Horizonte em 2023.

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