Entre versos e enfrentamentos: o papel social das batalhas de rima em Belém
Por Gustavo Baima
Em praças, ruas e bairros de Belém, as batalhas de rima seguem pulsando como espaços de expressão cultural, disputa simbólica e formação política da juventude periférica. Muito além do improviso e da competição, esses encontros se consolidam como arenas onde se debate racismo, violência, desigualdade e identidade; temas que atravessam o cotidiano de quem vive nas margens da cidade.
A permanência desses eventos, no entanto, não é simples. Eles existem, sobretudo, pela insistência coletiva de quem acredita na cultura hip-hop como ferramenta de transformação social. DJAY, organizadora e integrante ativa da cena, afirma que a sobrevivência das batalhas depende, antes de tudo, da união entre os envolvidos.

“O que faz uma batalha de rima existir e se manter, hoje, é muito a força de vontade da organização e dos MCs que frequentam o movimento. A gente sempre procura se aprimorar em relação às nossas equipes, às pessoas que compõem a organização. Atualmente, organizadores, mestres de cerimônias, DJs, todos têm se unido pra fazer o movimento acontecer de fato. Todo mundo se ajudando de alguma forma, seja pra levar uma caixa, seja pra dar uma premiação. É muito coletivo”, explica.
Sem patrocínio fixo ou investimento público consistente, as batalhas se estruturam de maneira independente: equipamentos de som são compartilhados, premiações são arrecadadas entre os próprios participantes e a divulgação ocorre, em grande parte, pelas redes sociais e pelo boca a boca. A autogestão, nesse contexto, torna-se não apenas uma necessidade, mas um posicionamento político.
Apesar da força coletiva, os desafios são constantes. DJAY aponta que a marginalização ainda é uma das principais barreiras enfrentadas pelos organizadores.
“Atualmente, o nosso maior desafio tem sido a nossa marginalização, tanto a perseguição popular quanto a policial. Já passamos por muitas violências”, relata.
Ela cita como exemplo a Batalha do Can realizada no bairro de Nazaré, onde vive a classe média alta da capital paraense. “É onde mais a gente recebe diversos olhares, comentários e principalmente violência da guarda e da polícia militar”, afirma. A ocupação de espaços considerados “nobres” tensiona desigualdades históricas e evidencia quem pode ou não usufruir da cidade.
Nesse cenário, as batalhas de rima assumem um papel que ultrapassa o entretenimento. O rap, segundo DJAY, é também instrumento de debate social. Para ela, as batalhas de conhecimento ampliam esse potencial ao transformar a disputa em espaço de reflexão coletiva.
“O rap ocupa um espaço artístico, mas também político e social a partir do momento em que levanta questões importantes. Poder chegar numa roda, ouvir o que o outro tem a dizer sobre pautas que acontecem com a gente e falar sobre a nossa realidade política, o que acontece no Brasil e no resto do mundo, é muito necessário”.

RIMA É VIVÊNCIA
A dimensão política também se manifesta nas trajetórias individuais. A MC LaÍndia Originária encontrou nas batalhas um território de posicionamento e pertencimento.
“Quando eu pego o microfone, a batalha vira o local ideal pra eu me politizar, falar sobre política, sobre o movimento cultural e me posicionar de fato”, afirma.
O primeiro contato dela com o universo das rimas aconteceu em 2018, na antiga Batalha do Sideral. O encantamento foi imediato, mas o medo também esteve presente. “Eu sempre tive medo, assim como muitas manas. Tinha medo de ser esculachada na frente de todo mundo, de falarem do meu corpo, do meu jeito”, relembra.
A virada ocorreu em 2022, durante um movimento feminino em Ananindeua. Faltavam mulheres para completar a chave da competição, e ela decidiu se inscrever, mesmo sem nunca ter rimado antes. “Nesse dia me senti encorajada, empoderada de ter outras mulheres no mesmo ambiente que eu e fazendo a mesma coisa que eu. Desde esse dia eu nunca mais parei”, conta.
Para LaÍndia, permanecer rimando é também abrir caminhos.

“Sinto que é essa a minha missão: continuar fazendo hip-hop pra que mulheres que não tenham tanta coragem ou tenham medo se inspirem em mim e comecem a ser fazedoras de hip-hop também”.
Entre caixas de som improvisadas, disputas acaloradas e intervenções policiais, as batalhas de rima de Belém seguem reafirmando seu direito à cidade. Mais do que competições, são espaços de construção coletiva, onde jovens transformam vivências em verso e resistência em ocupação.
CRÉDITOS: @arthemes (laindia)
INSTAGRAM DO ENTREVISTADO: @djayoriginal e @laindia._

