Trilogia musical “Amazônica” transforma rap em narrativa sobre passado, presente e futuro da floresta
Projeto do rapper Amazônico reúne três EPs e propõe uma jornada artística de consciência social na Amazônia
Por Fernando Assunção
O rapper Amazônico, artista da região sudeste do Pará, lança a trilogia musical Amazônica, um projeto formado por três EPs que propõe uma reflexão artística sobre a realidade dos territórios amazônicos. A obra percorre diferentes tempos da região, passado, presente e futuro, utilizando o rap como instrumento de memória, crítica social e consciência ambiental.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2024 com o lançamento do EP Amazônia Urbana. Territórios entrou nas plataformas de música ano passado. A trilogia encerra com Amazônia Futurista, que já está sendo desenvolvido com previsão de chegar ao público no segundo semestre de 2026. Juntos, eles formam uma narrativa musical sobre diferentes tempos da região amazônica.
A proposta é abordar os desafios vividos pelas comunidades da floresta, pelas cidades amazônicas e pelos diferentes territórios que compõem a região. “Cada obra aborda uma dimensão específica da Amazônia contemporânea”, resume Amazônico. “A criação da trilogia musical ‘Amazônica’ nasce de uma reflexão artística e social sobre a realidade vivida nos territórios amazônicos”, explica o artista. Segundo ele, o projeto surge da necessidade de trazer para o centro do debate questões ambientais e socioculturais que, por décadas, permaneceram invisibilizadas no cenário nacional.
O primeiro capítulo da trilogia, “Amazônia Urbana”, aborda as dinâmicas sociais, culturais e ambientais presentes nas cidades da região. O trabalho funciona como um alerta sobre os impactos de um modelo de desenvolvimento que muitas vezes ameaça a floresta e os modos de vida tradicionais.
Já o EP Territórios mergulha na diversidade cultural da Amazônia, destacando a presença de povos tradicionais, comunidades ribeirinhas e guardiões de saberes ancestrais que mantêm viva a memória e a identidade da região.
A trilogia se encerra com Amazônia Futurista, que projeta um olhar para o futuro. Nesse trabalho, as músicas assumem um tom de crônica e reflexão sobre as consequências das escolhas feitas no presente. A proposta é imaginar quais caminhos a Amazônia poderá seguir nas próximas décadas.
Vivências que viram música

O artista Amazônico vive em Itupiranga, município localizado no sudeste do Pará, às margens do Rio Tocantins. As vivências no interior da região influenciam diretamente as composições. O contato cotidiano com comunidades ribeirinhas e extrativistas contribuiu para formar a visão de mundo que aparece nas músicas do projeto.
Essa convivência também permitiu observar de perto as transformações ambientais e sociais que afetam os territórios amazônicos. “Sentimos na pele as dificuldades de manter esses territórios vivos diante de diversas pressões sociais e ambientais. Essas vivências se refletem diretamente nas composições”, conta Amazônico.
Um exemplo dessas experiências aparece na faixa Muvuca, lançada em 2024 no EP Amazônia Urbana. A música dialoga com mobilizações locais em defesa do Rio Tocantins e de outros rios da região, transformando em expressão artística as lutas de comunidades que resistem a projetos ameaçadores para os ecossistemas amazônicos.
Além de rapper, Amazônico é geógrafo, artesão, compositor e produtor cultural. O olhar multidisciplinar também influencia na produção artística. Segundo ele, o território aparece nas músicas não apenas como cenário, mas como protagonista das histórias narradas.
A relação entre arte e território orienta a ideia de fazer música com consciência territorial, conceito que guia o projeto. Para o artista, compor na Amazônia significa reconhecer as histórias, culturas e desafios vividos pelas populações que habitam a região.
“Fazer música com consciência territorial na Amazônia significa compreender que a arte não está separada do lugar onde ela nasce. No contexto amazônico, compor e produzir música é também reconhecer as histórias, os modos de vida, as culturas e os desafios vividos pelos povos que habitam esse território”.
Rap do interior e identidade amazônica
A trajetória musical de Amazônico começou em 2017, quando ele passou a se envolver mais profundamente com o movimento hip-hop em Itupiranga. O rap surgiu como uma forma de expressão capaz de traduzir as experiências vividas na Amazônia e dar voz às realidades da região.
Construir uma carreira artística na capital paraense, Belém, e fora dela trouxe desafios. Entre os principais obstáculos estão a falta de estrutura cultural e a concentração de oportunidades nas grandes cidades, o que dificulta o acesso de artistas do interior a editais, festivais e espaços de circulação artística.
Apesar dessas dificuldades, o artista destaca a força criativa existente no interior do Pará. Uma nova geração de músicos, produtores e coletivos culturais vem contribuindo para consolidar uma cena musical independente na região.“Muitas vezes, produções que falam sobre os territórios amazônicos, suas culturas e suas lutas ainda encontram barreiras para alcançar espaços maiores de difusão cultural”, conta.
Apesar dessas dificuldades, a experiência também revela a força criativa existente no interior da Amazônia. Muitos artistas e produtores da região possuem grande potencial e, quando conseguem se unir e fortalecer suas redes culturais, acabam criando novas oportunidades de circulação e visibilidade para suas obras”.
“Nomes como 6Black Jeff, Caroline Afrosil, Jovem Pou, Oriac e Prod Bren!n. são exemplos de artistas que vêm mostrando a força criativa existente no interior. Além dos artistas individuais, também existem grupos, coletivos e selos independentes que têm um papel fundamental nesse processo. Iniciativas como 094 Rec, Banda Lui e o selo Recria ajudam a fortalecer a cena local, criando redes de colaboração, produção e circulação artística”.
Fortalecimento da cena
Em 2024, Amazônico ganhou maior projeção ao ser reconhecido como Aposta Psica, iniciativa ligada ao Festival Psica, um dos principais eventos da música independente na Amazônia. O reconhecimento ampliou a visibilidade de seu trabalho e reforçou a relevância da proposta artística que vem desenvolvendo.
Além da carreira musical, o artista também atua na organização cultural por meio do coletivo ARU, criado em 2020. A iniciativa promove festivais, rodas culturais, oficinas formativas e atividades educativas, utilizando o hip-hop como ferramenta de formação cidadã e fortalecimento comunitário.
As ações do coletivo têm contribuído para movimentar a cena cultural no sul e sudeste do Pará, estimulando o surgimento de novos artistas e ampliando as redes de produção cultural no interior do estado.
“O movimento Hip-Hop pulsa forte no interior do Estado do Pará, especialmente no município de Itupiranga, onde teve início no ano de 2017, a partir da realização da primeira edição da Batalha da Praça. É nesse espaço que o Selo Aru se conecta ao Movimento Hip-Hop Itupiranga”, conclui.
Imagem da capa: Rayda Lima





