Moda é discurso: O rap feminino transforma a moda em identidade e poder

Por Brunna Silva

Esse movimento é um manifesto. Nasce do grito do subúrbio oprimido no fim da década de 70, no South Bronx, em Nova York. E na vontade de expressar os atravessamentos vividos pelo racismo e pela pobreza, a rua virou o palco onde começou o hip-hop: rap, DJ, breakdance, graffiti, um universo para existir e resistir.

O manifesto virou lei. Nem sempre respeitada, quase nunca institucionalizada, mas sempre à frente do seu tempo. O movimento atravessou fronteiras. Nos anos 80, chegou ao Brasil pelas mãos de jovens que consumiam discos importados, filmes e referências que cruzavam o Atlântico. E o que era influência virou identidade própria. Nos anos 90, grupos como Racionais MC’s transformaram o rap em crônica das periferias brasileiras, consolidando o movimento como narrativa social e política.

Mas não são apenas os homens que comandam a cena do hip-hop no Brasil. Nas últimas décadas, as mulheres têm mostrado ainda mais ascensão quando o assunto é hip-hop, trazendo narrativas que jamais poderiam ser contadas sob a luz do olhar masculino. O rap feminino chega como um ato de autoafirmação política e estética. São nomes como Júlia Costa, Duquesa, Tasha e Tracie que carregam a potência feminina para afirmar os espaços das mulheres nesse movimento e na sociedade.

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

E para além do Sudeste brasileiro, outras mulheres comandam a cena e carregam nas suas letras e na sua existência a identidade de ser quem são, de ser do Norte. MC Íra, Matemba, Anna Suav, Ruth Clark, Nic Dias, Bruna BG e muitas outras exalam identidade nortista nas canetadas que vão desde a letra até a forma de se vestir. Elas são a moda!

O contato é visual e transmite quem somos, de onde viemos, como pensamos e o que queremos ser. E no hip-hop a vestimenta nunca foi só um detalhe, é a peça-chave. Principalmente para elas, que inspiram gerações de meninas pretinhas. Como diz MC Íra em Elas Gostam do Perigo: “com os looks do Veropa eu tô chique, chique”. Isso é moda! A estética é a extensão da voz e, em terras nortistas, é muito importante manifestar quem é. Se o movimento nasceu para manifestar existência, a moda dentro dele aprendeu a manifestar identidade.

As artistas nortistas dão um baile quando o assunto é autoestima, afeto e moda. Em entrevista com a rapper Anna Suav, ela diz que a moda simplesmente é “como a gente quer ser lida no mundo, mas também como se sente por dentro”. Anna diz que gosta de moda desde pequena; ela é artista desde criança.

Dança, compõe, canta e sempre esteve acompanhada da moda. E desde quando se consolidou no hip-hop, Anna leva a sua forma de enxergar o mundo para seus trabalhos, sempre dialogando com seu território. Mas também lembrando que o movimento iniciou em outro país e existe em todo o mundo, então é importante exercer essa comunicação global.

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

“Eu gosto muito de ter referências do meu próprio território. Eu venho de um território com muitos símbolos, então acho importante usar alguns elementos. E apesar de ter nossa versão brasileira, o hip-hop é um movimento importado, então eu me interesso por essa comunicação global do hip-hop também. Então, o meu trabalho tem uma comunicação regional, mas também global na sua estética.”

E para além de expressar quem se é, a moda também é política. Ela revela as relações de poder, acesso e pertencimento. Quando o dinheiro entra em jogo, a criatividade sempre entra também. A periferia sagaz está à frente do tempo, ditando a moda.

Beleza negra como processo de se enxergar em outras pretinhas

Brincos grandes, tranças, durags, sobreposições, estampas, correntes, minissaias afirmam o poder do que se vê no espelho, e esse espelho inspira outras pessoas a criar a partir do que se tem. Com Raquel Lima, conhecida como Princess Babe, foi assim desde pequena. A condição financeira sempre a fez enxergar além: o futuro da estilista e influenciadora estava nos brechós, abrindo um leque de possibilidades.

“O brechó entrou na minha vida desde muito nova. Quando eu era adolescente, foi a forma que eu encontrei de experimentar a moda sem que o dinheiro fosse um empecilho.”

Para muitas pessoas negras e periféricas, especialmente jovens mulheres, vestir-se é uma forma de reivindicar visibilidade. Os brechós e a moda circular entram nesse processo como ferramentas de liberdade criativa e também de democratização do estilo. Ao reutilizar peças, customizar roupas e reinventar combinações, quem muitas vezes não tem alto poder aquisitivo passa a criar estéticas próprias, autorais e potentes.

“Eu acredito que as pessoas não deveriam ter suas experiências limitadas pela quantidade de dinheiro que elas têm, e o brechó está neste lugar de permitir que as pessoas criem, que construam uma autoestima”, afirma Princess Babe.

E se tem gente criando a moda e fazendo circular entre os nossos, é porque a periferia fez acontecer. Eles sempre tentam tirar a periferia do lugar de acesso, mas esquecem que quem cria o que eles vestem é ela. Foi com o intuito de afirmar e valorizar nossa identidade através do vestir que nasceu o projeto Periferia Tá na Moda (PTNM).

Para Vitória Costa, produtora do PTNM, a moda é como você se mostra na sociedade, e ela diz que o projeto vem para realçar essas identidades:

“Queríamos mostrar que o que a gente veste aqui é visto como marginalizado, mas quando vai para o exterior, é visto como Brasil Core e aceito na sociedade {…}. Então, a gente queria quebrar o estereótipo de que só porque vem da periferia não é bom. O Periferia valoriza a gente.”

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

E para além de valorizar as identidades das periferias amazônicas, o projeto também acredita na moda sustentável; afinal, a sustentabilidade já é um símbolo do norte e da ancestralidade que esse solo carrega. São nos brechós dos bairros periféricos que a moda se cria, reinventa, sustenta e vence o consumo desenfreado e elitizado da moda consumida em alto escalão, que, no final, é o Ctrl C, Ctrl V de quem pensa fora da caixinha: a periferia.

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

“A moda é um envolvimento da economia no bairro em que vivemos; a identidade deixa de ser apenas o que a gente veste, mas também é o que a gente vive, a nossa economia local”, afirma Vitória.

A produtora lembra que a identidade em volta e dentro das periferias tem inspiração no hip-hop. O movimento vem das ruas, e é ali que a moda também se cria, nas rodas onde as pessoas conseguem enxergar seus semelhantes e ver beleza nos mini-shorts, nas nagôs, nos lenços e nos trecos balançando, anunciando no barulho das argolas e pulseiras a autoestima que voltou, lembrando que quem dita a autoafirmação estampada no reflexo são as mulheres, as mulheres negras.

Moda, identidade e representação

Nesse cenário de construção que mulheres artistas, stylists e criadoras de estética têm transformado o rap em um espaço de expressão também visual, o hip-hop é um território onde identidade, moda e beleza negra caminham juntas. No Brasil, essa relação entre rap e moda já atravessa passarelas, videoclipes e projetos culturais que celebram a ancestralidade e a estética negra.

No Norte do país, essa força ganha rios próprios: as referências amazônicas atravessam a estética urbana, bem como mulheres da cena local constroem imagens que dialogam com autoestima, criatividade e pertencimento. É nesse movimento que artistas e criadoras da cena de Belém vêm mostrando que vestir-se também é um ato de afirmação

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

No clipe Trama, de MC Íra, lançado em fevereiro deste ano, quem assina o figurino é a Princess Babe. Ela conta que a concepção visual do clipe veio para mostrar as latinidades que são muito fortes no Norte. Antes da estética latina virar tendência em todo o Brasil, o Norte sempre carregou, em seus ritmos, cores e danças, a presença latina, e o clipe traz esses elementos, além de ser um trabalho que exala a sensualidade da mulher brasileira.

“A gente queria trazer o sexy nesse lugar de que as mulheres sabem que seus corpos são invadidos diariamente pelo que a sociedade espera das mulheres, essa submissão de que a mulher precisa ser subalterna. E a gente subverte essa ideia mostrando que podemos nos expressar livremente.”

Moda também é se enxergar no outro e entender o que ali te cabe, e essa nova geração de rappers femininas tem dado uma aula de afeto e autoestima para a sociedade. Tanto Anna Suav quanto a Princess Babe dizem se sentir felizes quando se veem nesse lugar de referência para outras gerações.

Anna diz que, quando recebe elogios sobre seu trabalho, isso mostra que está no caminho certo nas suas escolhas, e que o trabalho dela também é de autoestima da população negra.

“Eu percebo a construção dessa autoestima de meninas e mulheres que consomem meu trabalho e se acham parecidas comigo. Isso gera uma representação e um espelhamento. Eu fico feliz porque forneço o que eu não tive.”

Foto: Ana Serrão (@anaserrao.foto). Acervo Gabinete do Rap

A Princess diz que é uma honra saber que é referência na moda para outras meninas:

“É muito gratificante saber que, de alguma forma, essas meninas se espelham em mim e torcem por mim também”. E ela conclui dizendo que essa é a beleza da coisa: a conexão dos nossos semelhantes.

E a vontade delas, e de todas nós que nos inspiramos em pretinhas parecidas com a gente, é sempre estar no topo e querer as nossas lá também. No fim das contas, é sempre sobre identidade e manifestação de quem nunca teve o palco livre para o manifesto. O hip-hop sempre quebrou estigmas e ditou o tom para quem despreza quem o faz. Como diz Anna Suav em Pegada de Chefona: “se é crime ser boa em tudo o que eu faço, eu sou culpada”.

Mulheres negras carregam a boa culpa e o peso, dentro da cultura hip-hop, de ser referência para as demais. A estética que nasce da vivência delas ajuda jovens a reconhecerem beleza em seus próprios traços, corpos e culturas. Para muitas delas, o rap abriu justamente essa possibilidade de existir e se expressar com liberdade, fortalecendo a autoestima e a forma como se enxergam no mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *