Entre arte e resistência, grafiteiros ocupam os muros de Belém

Por Evelyn Ludovina

O graffiti é um dos elementos mais marginalizados da cultura hip-hop e ainda costuma ser visto de forma reducionista e criminalizante. Em Belém, porém, essa expressão artística vai além da estética e se torna um ato político e de democratização do espaço urbano, ocupando a cidade com múltiplas narrativas, estéticas e funções sociais.

Apesar dessa visão preconceituosa de alguns, as pessoas tentam ressignificar o grafite na tentativa de torná-lo uma arte mais aceita pela sociedade. Para que fosse possível “riscar” os muros da cidade, alguém precisou vandalizar para ocupar e conquistar esses espaços.

Assim, com tintas spray e muros em branco, Patrick Santos, mais conhecido como PTCK, Emely Paz e Mina Ribeiro produzem galerias a céu aberto. Mesmo que cada um possua marcas que caracterizam suas produções, há algo em comum entre eles, o entendimento da importância de ocupar a cidade de forma política e de que a arte é capaz de transformar a vida de quem a produz e de quem a consome.

Foto: Arquivo Pessoal, PTCK.

PTCK tem como foco de suas produções autorais o cartoon, com desenhos de traços expressivos e um personagem criado por ele que sempre aparece de boné ou gorro. Inspirado pelas experiências vividas na Terra Firme, ele busca criar obras nas quais pessoas da periferia possam se reconhecer. Ao mesmo tempo, afirma que gosta de despertar a curiosidade do imaginário infantil, assim como a arte despertou a dele no passado. 

Emely Paz nasceu em um “berço de hip-hop”, e a identidade paraense e nortista, junto às inspirações indígenas, molda seu processo criativo e a estética de seus grafites. A cor roxa é um elemento marcante em suas obras, que muitas vezes retratam mulheres amazônidas com traços fortes e potência no olhar.

“Eu procuro trazer muito quem eu sou, a minha identidade enquanto pessoa paraense, nortista, e também resgatar essa minha essência dentro do grafite desde quando eu comecei”, explica.

Assim como Emely, Mina Ribeiro também utiliza o graffiti como forma de expressão e posicionamento. Suas produções falam especialmente de mulheres negras, e destacam a importância de discutir o que significa ser mulher e ser uma mulher negra com o corpo político na rua, pintando e demarcando território.

Esse debate também revela um desafio dentro da própria cultura hip-hop. O movimento, do qual o graffiti faz parte, é majoritariamente composto por homens. Ao longo do tempo, o número de mulheres na cena nacional aumentou, mas em Belém ele sempre foi muito reduzido. Estar na rua já é perigoso, mas estar na rua e ser mulher é ainda mais difícil. Vítimas de preconceito, Emely e Mina já foram chamadas de “vagabundas” e contam que ouviram frases como “sai daí, pichadora, vai lavar uma louça” enquanto pintavam.

Além das barreiras de gênero, os artistas também enfrentam dificuldades para viver da própria arte. Em Belém, as oportunidades são limitadas e, segundo PTCK, não é possível viver apenas de trabalho autoral:

Foto: Arquivo Pessoal, PTCK.

“Quem continua é quem resiste, tá ligado? E tem a questão de que as pessoas vão embora de Belém para buscar melhoria profissional, mas eu não tenho vontade de sair daqui, porque foram anos para eu construir a minha história na arte. Para eu chegar em outro local, eu vou conquistar tudo do zero”.

Nesse cenário, a desigualdade social também influencia quem acessa oportunidades. Segundo Mina Ribeiro, com a popularização do grafite e o surgimento de artistas de classe média, grafiteiros pretos e periféricos passaram a receber menos convites para trabalhos e projetos.

“Não é porque tu trabalha com spray que isso te torna um grafiteiro, tem que ter a legitimidade do coletivo. A comunidade te reconhece como grafiteiro. Tu faz parte de uma comunidade”, Mina Ribeirinha.

Apesar desses desafios e disputas por espaço, o grafite também cumpre um papel importante na ampliação do acesso à arte. Para além de suas narrativas e funções sociais, ele leva a arte para fora dos museus e a coloca na rua, ao alcance de quem quiser ver. Nesse sentido, é válido destacar que embora parte dos museus possua entrada gratuita, muitas pessoas não se sentem pertencentes a esses locais e têm pouco tempo ou disposição para visitar museus ou galerias.

“Eu vejo na minha quebrada que as pessoas nem sabem da existência de alguns espaços de arte. E no fim de semana, quando podem descansar, vão sentar na porta de casa pra tomar uma cervejinha, e o contato que vão ter com a arte é com o grafiteiro ou a grafiteira que tá pintando, às vezes, um muro na frente da casa dela”, diz Mina Ribeiro.

Foto: Arquivo Pessoal, Mina Ribeirinho

Mesmo diante dessas disputas por reconhecimento e espaço, os artistas também destacam o papel transformador do grafite e da cultura hip-hop. Para muitos, a arte se torna uma ferramenta para empreender e também para tirar pessoas de situações de vulnerabilidade.

“Ele transforma pelo fato de que tá ocupando mentes, sabe? O hip-hop dá uma ocupação para as pessoas que gostam de fazer aquilo, tanto na dança quanto na pintura ou na música. A arte tem a capacidade de tirar as pessoas da vulnerabilidade”, afirma Emely.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *