“Minha música é cinemática”: MC Super Shock fala sobre o EP O.N.M.I.
Imprevisível, um adjetivo que descreve algo que não pode ser antecipado com exatidão. Nesse sentido, MC Super Shock estreia seu novo EP intitulado “O.N.M.I – O Negro Mais Imprevisível” lançado na última quarta (10), projeto que fala sobre o rap afro-amazônico, ancestralidade, espiritualidade, violência social e referências às encantarias da região Norte do Brasil.

Com 5 faixas e uma estética sonora marcada por vozes, coros, texturas orgânicas e referências ao rap dos anos 1990, o EP nasce da urgência de existir para além das narrativas de escassez impostas aos corpos negros amazônicos, organizando raiva, afeto e espiritualidade como potência criativa. Na faixa título homônima, o artista traz a diáspora negra em um diálogo-manifesto repleto de instrumentais e vocais.
Minha música é cinemática. Porque eu acho que no início da minha carreira, o audiovisual foi fundamental para a expansão da minha arte
A obra possui participação de Anna Suav, Karen Francis, Arthur da Silva e Fabriccio, e produção de OnçaBeat, Suntizil e Malária. Shock assina todas as faixas como artista e produtor audiovisual. Sua construção musical evidencia traumas, emoções, revoltas de uma maneira particular.
Embarcando na não linearidade da vida, a obra traz uma experiência audiovisual completa onde, em ironia à “Saturação” (produtora audiovisual de Shock), mostra uma estética P&B. Através de filmagens entre amigos, família, viagens e vida cotidiana, o artista se aproxima com o público. As filmagens e fotos de infância constroem a narrativa de MC Super Shock, trazendo essa sensação de proximidade.
As pessoas estão muito atreladas aos meus sonhos, assim como eu estou muito atrelado ao sonho de outras pessoas, então isso é uma forma coletiva da gente sobreviver com a meta de viver
Entrevistamos o artista sobre a origem do bordão “O Negro Mais Imprevisível”, o processo de produção do EP, a união entre o Shock rapper e o Shock audiovisual, suas referências estéticas e a forma como transforma traumas, raiva, afeto e espiritualidade em linguagem artística e tudo que ronda o processo criativo de O.N.M.I.
Confira a entrevista abaixo:
GBRAP: De onde surgiu o bordão de “Negro Mais Imprevisível”?
Shock: Bom, esse bordão, que é o nome do EP, e também é um bordão que eu carrego, veio de coisas impossíveis e aleatoriedades que poderiam acontecer na minha vida, seja positiva, negativa, da vida pessoal até a profissional, artística… sobre o modo que eu fazia, que eu faço as coisas, desde a música ao audiovisual. Então, eu mostrava, fazia, e as pessoas sempre falavam, “pô, isso foi muito imprevisível, não imaginava isso”. Aí eu, pô, “O Negro Mais Imprevisível”, né?! Então eu carreguei o bordão e quis massificar ele. Enraizá-lo, colocando como título de um EP.
GBRAP: Entre as faixas, tem alguma específica que seria sua favorita e por quê?
Shock: Para o artista, todas elas são as favoritas porque todas estão transitando por um lugar, um sentimento específico ali sabe? Por mais que seja subjetivo, eu confesso que a minha favorita é “O.N.M.I.”, a faixa título, por causa da sonoridade dela, sabe? É uma parada meio crua, mas também tem vários complementos orgânicos, tem um jogo de vozes ali que eu acho muito foda, eu gosto de mais dela. Mas assim… entre todas, né? Porque cada uma tem sua especificidade.
GBRAP: O que podemos encontrar da pessoa além do Shock e qual sua particularidade nesse EP?
Shock: Cara, eu canto o que eu vejo, o que eu sinto, o que eu vivo, né? Então eu tô em todas as faixas, é parte de mim, do que eu vi, do que eu senti, do que eu vivi; as experiências e as reflexões sobre isso, sabe? E as faixas estão organizadas em um sentido que eu fui me organizando também, sabe? Organizando meu pensamento atribulado, minha raiva, entendendo minhas emoções, meus traumas, e a partir daí se transformando. Com o intuito de ser sempre alguém melhor do que eu já fui.
GBRAP: Vimos que você abraçou a estética P&B, fora toda a narrativa audiovisual em volta de O.N.M.I, é dessa forma que encontramos a união do Shock rapper e do audiovisual?
Shock: Sim. Eu diria que meu rap é cinemático, sabe? Minha música é cinemática. Porque eu acho que no início da minha carreira, o audiovisual foi fundamental para a expansão da minha arte, mas também como um conhecimento pessoal e como eu posso narrar, contar as histórias. O que eu vivo, o que eu vejo, minha [experiência] ou então de alguém próximo, sabe? Me basear nisso… Então o audiovisual sempre esteve muito atrelado a tudo que eu faço.
E dessa vez eu decidi fazer P&B. por uma contradição mesmo, sabe? A galera fala muito da minha marca, das cores e tudo mais. A Saturação é também mais uma das personas que eu tenho. E é saturação, não porque o vídeo tá saturado, mas na verdade é porque eu tava saturado de tudo que eu tava ouvindo, e decidi fazer uma coisa que eu quero, que eu gosto, sabe? Então tem muita intensidade do que eu faço, muita vibração, acho que por isso as coisas marcantes, mas em contradição, quis mostrar que não é só sobre cor, sabe? É sobre a linguagem, é sobre o método que você coloca e que você quer que seja raciocinado por mais que cada um tenha sua interpretação, óbvio, mas tem um senso comum também.
Essas são algumas reflexões particulares a partir disso do que você vê também, então, eu decidi colocar P&B porque eu senti que eram mais do que as cores, porque as cores estão lá, dá pra ver tudo, dá pra ver todas as cores, entendeu? Basta você se inteirar, você fazer parte daquilo. E de alguma forma, as pessoas também fazem parte de tudo, de tudo que eu vivi, pelo menos, porque a minha vida foi um todo coletivo, sabe?
Então, nesse EP visual – ou curta experimental – pude perceber que as pessoas estão muito atreladas aos meus sonhos, assim como eu estou muito atrelado ao sonho de outras pessoas, então isso é uma forma coletiva da gente sobreviver com a meta de viver. Espalhando uma arte, uma arte educadora, um arte que faz as pessoas refletirem e também curtirem porque a gente tem esse direito de viver e se divertir.

GBRAP: Afinal, como é produzir para si mesmo?
Shock: É bom e ruim ao mesmo tempo. Tem seus pontos positivos e negativos, onde você tem acesso a todo o material, você consegue colocar seu imaginário e seus quereres, para ser exatamente o que eu tava pensando, ou o que tinha feito de rascunho. Mas também é lidar com a frustração de que nunca vai sair como está na minha cabeça. E é normal, e tudo bem, sabe? Eu acho que o quanto antes a gente entender isso, é bacana. Porque a gente tem muito perfeccionismo, né? A gente tem um preciosismo muito grande sobre nossa arte. E o preciosismo, ele acaba sendo prejudicial, às vezes, quando a gente tenta chegar em um ponto que não é possível chegar, porque o melhor que a gente deu e conseguiu, foi ali. Foi até aquele ponto, sabe? Só que a gente tenta sempre deixar melhor, melhor, melhor e melhor… E, às vezes, demora, faz com que as coisas fiquem sobrecarregadas pelo preciosismo. Eu tenho o meu preciosismo, não vou negar, mas também entender que aquela parada, o real é o imperfeito, o perfeito é a imperfeição.
Eu comecei pelo fato da sobrevivência mesmo, entendeu? Eu vi que quanto mais eu souber a área que me impacta, mais eu vou conseguir desenrolar. Então, assim eu fiz na música e assim eu fiz no audiovisual.
Não é fácil, porque eu não sou fácil. E porque não é fácil. Mas… Se é preciso, a gente faz.
GBRAP: E a estética sonora do EP?
Shock: Eu quis trazer uma estética sonora um pouco diferente. Eu gosto muito de trabalhar com instrumentos orgânicos, então eu acabo misturando muito minha música. Por isso, eu fiz algumas releituras de quase todas as músicas, na verdade, a partir do beat e tudo mais, mas trouxe mais componentes. E o fator principal desse EP é esse trabalho com as vozes, com os coros, os backing vocals. Eu tentei trazer uma sonoridade, uma textura bem anos 90 mesmo, sabe? Onde as vozes, os backs eram um dos principais componentes. Então, eu quis colocar isso.
Eu tive uma grande mentoria que ficou à frente da direção musical, que foi a Karen Francis. Uma musicista estudada! Uma mulher da produção musical e cantora também, né? Ela é foda. Junto com o Arthur da Silva também, que tava na contenção, e ajudou também nos arranjos para “Só mais 5 minutos”, e no EP tem uma releitura dessa música com participação da Anna Suav.

GBRAP: Você seguiu alguma referência sonora e estética na construção de O.N.M.I?
Shock: Essa é uma pergunta muito relativa, porque eu segui a referência de tudo que eu já vi, sabe? De tudo que eu consegui entender e, a partir daí, usar ao meu favor, usar dentro da minha criatividade, imaginar como eu poderia agregar da melhor forma, sabe? Eu sou fã de cinema brasileiro. Eu sou cinéfilo, então, eu assisti muitas coisas no cinema brasileiro que, para mim, é um pouco mais complexo do que o cinema estadunidense, por exemplo, porque eles usam muito o literal e a gente vai muito para as sublinguagens, para as coisas mais subentendidas, mais complexas de análise, de reflexão que vai para muitos outros lugares. Então, para mim, é muito por aí, sabe? Mas tem, aliás, um filme que é um dos meus preferidos, que me faz refletir muito sobre a minha vida, sobre as distâncias, sobre as saudades e sobre ter que ir, né? Sobre a relação da migração, a relação do estar só também, que é “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo“.
Eu acho que esse enredo desse filme me pega muito, sabe? Até pelo fato de ser pela minha terra, além de nascença e de criação, né? Então, ele me leva para vários lugares sentimentalmente falando. E, de alguma forma, tem um pouco disso nesse EP visual. Por mais que a proposta seja diferente, mas também tem um pouco sobre isso.
E a proposta do audiovisual é essa, né? Agora, adultos, nossos sonhos ainda são os mesmos? Nossas ambições são as mesmas? Será que a gente está fazendo o que um dia a gente sonhou? Ou a gente está sobrevivendo? Da forma que pode. Mas eu acredito que, quando a arte não é alimentada, nossa criança não é alimentada. Então, de alguma forma, a gente se esvai um pouco por dentro.
É mais ou menos por aí (risos).

