Mairi Hip-Hop LAB fortalece cena independente e conecta os quatro elementos do hip-hop no Pará
Por Fernando Assunção
Em um cenário cultural onde grande parte das iniciativas ligadas ao hip-hop nasce e se mantém de forma independente, o Mairi Hip-Hop LAB surge como uma proposta inovadora de formação, incubação e fortalecimento de projetos socioculturais no estado do Pará. Idealizado e produzido por Renan Rosário, o laboratório promoveu uma imersão formativa voltada a coletivos que atuam com os quatro elementos fundamentais da cultura hip-hop:MC, DJ, breaking e graffiti.
Realizado entre os últimos dias 20, 21 e 22 de fevereiro, no município de Ananindeua, na região metropolitana de Belém, o projeto se consolidou como um espaço de troca de saberes e construção coletiva. A iniciativa reuniu artistas, produtores culturais e agentes da cena hip-hop paraense em uma convivência intensiva.
A proposta foi oferecer formação técnica, apoio financeiro e acompanhamento para iniciativas que já atuam nos territórios, mas que frequentemente enfrentam dificuldades para acessar recursos e ampliar suas ações.
Incubadora para a cultura periférica

O Mairi Hip-Hop LAB foi concebido como um laboratório-incubadora de projetos socioculturais ligados à cultura urbana amazônica. Seis coletivos do Pará foram selecionados para participar da imersão, onde tiveram a oportunidade de estruturar planos de ação voltados ao fortalecimento de suas iniciativas.
Durante o encontro, os participantes participaram de mesas temáticas sobre a cena hip-hop paraense, além de oficinas de produção cultural, acessibilidade, cooperativismo e economia criativa. As atividades contaram com a participação de artistas e pesquisadoras como Brigitte Liberté, Bruna BG e Mina Ribeirinha, ampliando o debate sobre políticas culturais e sustentabilidade financeira no campo das artes.
Ao final da imersão, cada coletivo recebeu um investimento de R$ 5 mil para implementar melhorias em seus projetos, seja na compra de equipamentos, na realização de eventos ou na ampliação das atividades formativas em seus territórios. Além disso, as iniciativas passaram a receber acompanhamento da equipe organizadora durante o mês seguinte ao laboratório.
O projeto foi financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do edital de Criação na categoria de Cultura Urbana e Periférica, e conta também com o apoio da Fundação Cultural do Estado do Pará (FCP).
Fortalecer quem já faz a cena
Para o idealizador do projeto, o laboratório nasce da observação direta das dificuldades enfrentadas por artistas e coletivos que atuam fora dos grandes centros culturais. Renan Rosário explica que a inspiração surgiu após visitar diferentes territórios do estado, onde percebeu a presença forte do hip-hop mesmo em contextos com poucos recursos.
“Tive a oportunidade de visitar localidades como Marajó e Igarapé-Miri e percebi que há manifestações da cultura hip-hop praticamente em todos os cantos da Amazônia. No entanto, esses fazedores de cultura enfrentam diversas dificuldades para manter seus projetos em atividade”, afirma.
Segundo ele, as dificuldades passam por fatores como a distância geográfica da capital, a burocracia para acessar editais culturais e a falta de formação técnica na área de gestão cultural. “A maior problemática é a questão financeira, somada à fragilidade das políticas públicas voltadas à cultura. O objetivo do Mairi é justamente oferecer formação e apoio para potencializar iniciativas que já existem”, explica.
Outro diferencial da proposta, segundo Rosário, é reunir os quatro elementos do hip-hop em um mesmo espaço de diálogo. “Nos eventos da cultura hip-hop, normalmente vemos batalhas de rap ou competições de breaking, mas cada elemento acaba atuando de forma isolada. O Mairi propôs justamente aproximar essas linguagens e promover troca de experiências entre artistas e agentes culturais”.
Arte como transformação social
Entre os artistas beneficiados pelo projeto, está o Sumano, integrante do coletivo Só Rema. Rapper, compositor e professor de geografia, Sumano é natural da comunidade ribeirinha Vila Menino Deus do Anapu, situada às margens do Rio Anapu, no município de Igarapé-Miri, nordeste do Pará. Ele apresentou uma proposta voltada à interiorização da cultura hip-hop.
O projeto prevê a realização de uma versão itinerante do evento Hip-Hop Movimentos, levando atividades culturais para comunidades rurais do município de Igarapé-Miri. Para o artista, a experiência no laboratório reforçou a importância da organização coletiva dentro da cultura.
“O Mairi renovou minhas esperanças em um futuro menos complexo para nós, fazedores e fazedoras da cultura hip-hop paraense. Ele mostrou que se organizar coletivamente e intercambiar saberes amplia as possibilidades de vivermos da arte que produzimos”, diz Sumano.
Segundo Sumano, iniciativas como essa ajudam a consolidar o hip-hop como ferramenta de transformação social nas comunidades. “A mensagem do hip-hop está nos graffitis, na música, na dança, no diálogo, nos brechós. Essa composição cria um mosaico de paisagens do hip-hop onde pessoas periféricas conseguem se enxergar e se reposicionar no mundo”.
Apesar da potência cultural, ele aponta que o cenário independente ainda enfrenta grandes desafios. “Quem atua na cena independente normalmente trabalha para trabalhar com a arte. A exaustão de estar sempre buscando meios de sobreviver faz com que a gente produza arte porque ela está em nós. Mas raramente sobra espaço para estudar gestão de carreira ou acesso a editais.”
Formação para novos artistas
Outra participante do laboratório foi Amanda Cardoso, conhecida artisticamente como DJ Psicopreta. Nascida no bairro do Jurunas, periferia de Belém, a DJ Psicopreta é reconhecida na cena musical paraense por seu trabalho de discotecagem e difusão de ritmos amazônicos de quebrada. Ela apresentou no Mairi LAB o projeto Mixlab, uma oficina de formação para novos DJs.
A proposta busca ensinar noções básicas de discotecagem, incluindo técnicas de mixagem, funcionamento de softwares e estrutura de equipamentos. “Existem muitos coletivos e projetos que já fomentam a cultura de forma totalmente independente, mas o recurso financeiro faz muita diferença, porque permite ampliar o acesso e alcançar mais pessoas”, afirma.
Com o apoio recebido no laboratório, o projeto poderá adquirir ou alugar equipamentos profissionais para as oficinas. “Vamos poder trabalhar com controladoras, CDJs e projetores para oferecer uma experiência mais completa para quem quer aprender a discotecar”.
Para DJ Psicopreta, a formação também representa uma oportunidade de valorizar a diversidade musical da região Norte. “Temos um universo enorme de ritmos e gêneros musicais aqui. A ideia é incentivar as pessoas a explorar essa cultura e entender como a discotecagem pode dialogar com a identidade nortista”.
Além do impacto direto nos projetos selecionados, o Mairi Hip-Hop LAB também se destacou pela criação de uma rede de colaboração entre artistas, coletivos e produtores culturais do estado.
Para Renan Rosário, esse processo de convivência e troca foi um dos pontos mais importantes da experiência. “Momentos de estudo coletivo e debates são raros nos eventos de hip-hop. A imersão permitiu que artistas de diferentes territórios compartilhassem trajetórias, dificuldades e estratégias”.
A expectativa agora é ampliar a iniciativa para novas edições. A organização do projeto já iniciou um novo processo de curadoria e captação de recursos para garantir a realização da segunda edição do Mairi Hip-Hop LAB em 2027, desta vez em outro território do estado. A proposta, agora, é descentralizar as ações culturais e fortalecer a cultura hip-hop em diferentes regiões da Amazônia paraense.
Foto capa: Ana Ribeiro.

