Sonoridade amazônica permite experimentações únicas mostra o rapper TioBlack em Trapnobrega

Texto: Gustavo Vilhena

A trajetória do rapper paraense Glenison dos Santos Justiniano, conhecido artisticamente como TioBlack, reflete a força da cultura hip-hop na Região Norte e sua constante reinvenção a partir de diálogos com outras sonoridades periféricas. Com mais de duas décadas de atuação na cena, o artista construiu um caminho marcado pela valorização das raízes culturais amazônicas e, atualmente, aposta na fusão entre rap, trap e tecnobrega como proposta estética e política. O novo projeto, intitulado Trapnobrega, deve ser lançado ainda neste ano e simboliza esse momento de amadurecimento musical.

Natural de Ananindeua, Black iniciou sua relação com o rap ainda muito jovem, na década de 1990, influenciado por artistas que circulavam nas rádios comerciais e também pelo universo do funk carioca, que à época era associado ao rap. No entanto, foi por meio do skate que ele se aproximou de forma mais profunda da cultura de rua. 

“No ano de 97, na rua que eu jogava bola, tinha uma galera mais velha que andava de skate board, entre uma travinha e outra, eu ficava olhando os caras andar de skate, e vire e mexe, eu pedia pra brincar. Na época eu tinha uns 13 anos de idade e, no decorrer do tempo, eu fui conhecendo todos os skatista que frequentavam aquela mesma rua que eu jogava bola. Daí acabei me envolvendo com o skate board e abandonei o futebol pra começar a andar de skate”, disse ele.

Entre as suas principais referências está o grupo M.B.G.C (Movimento da Baixada de Grosso Calibre) grupo que surgiu em 1994 no Bairro da Terra Firme composto por Morcegão, PJÓ e Marcelo Magno, considerado por ele o primeiro nome da cena local com o qual teve contato direto. A partir desse momento, passou a frequentar shows e encontros, além de consumir e compartilhar produções independentes em fitas cassete, prática comum naquele período. Esse processo foi fundamental para consolidar sua identidade artística e fortalecer sua ligação com o movimento.

Festival Outros Nativos, foto: @victorpeixephoto

Ainda no fim dos anos 1990, durante o período escolar, Black começou a escrever suas primeiras letras após participar de uma disputa musical entre colegas. “Em um evento da escola, eu e uns amigos que andávamos de skate, fizemos uma disputa de rap. Cada um escolheu uma música pra cantar e eu acabei ganhando a disputa. Depois que acabou o evento, uma garota chegou com nós. Ela era de outra turma e começou a se entrosar com a gente. Depois me falou que o namorado dela tinha um grupo de rap e o cara era o PJÓ do M.B.G.C. Ela me apresentou os caras em um evento e comecei ir nos eventos que ele sempre tocavam”, relembrou.

“Na época eu não sabia onde conseguir as músicas e o Pjo já tinha um acervo grande de sons. Eu comprava umas fitas virgens e ela levava pra ele fazer umas cópias para mim. Viramos amigos e ela me perguntou porque eu não escrevia umas letras pra cantar, porque eu já andava no meio do movimento. Fui pra casa com isso na cabeça, de tentar escrever algo. Escrevi umas linhas e depois convidei um amigo aqui pra começarmos a fazer um rap. Ele parou de escrever e eu continuei, só que na época era difícil conseguir as batidas e a gente gravou essa letra em uma fita, fazendo a batida em uma mesa”, contou TioBlack.

A carreira ganhou novos contornos a partir dos anos 2000, com a criação do grupo Tiroteio da Rima, formado por amigos do skate. O coletivo teve papel importante na difusão das rodas de improviso em Belém, em um momento em que o movimento ainda era incipiente. Ao longo dos anos, Black participou de diversos eventos culturais, festivais e ações sociais

além de integrar projetos musicais e lançar trabalhos independentes, como o EP Primeiro round é só o começo da luta, reforçando sua presença na cena.

Aparelhagem, tecnobrega e rima 

O contato com diferentes estilos musicais e vivências culturais também contribuiu para a construção de uma nova perspectiva artística. Inicialmente mais ligado a uma visão tradicional do rap, influenciada pelo movimento underground dos anos 90, Black passou a ampliar seu repertório ao observar experiências de fusão entre gêneros em outras regiões do país. A relação com a cultura de aparelhagem, presente desde a infância por influência familiar, também foi determinante nesse processo.

“Após alguns anos de amadurecimento musical, minha perspectiva se ampliou. Inicialmente, minha abordagem era mais focada no rap, mas gradualmente me abri a outros gêneros musicais. Observei que diversos artistas já exploravam a combinação do rap com outros estilos, como o rock, em exemplos como o Planet Hemp, que incorporava elementos de samba, e artistas nordestinos que mesclavam rap com forró e embolada”, explicou.

A virada estética e a junção com a sonoridade amazônica ocorreu a partir de experiências em festivais e apresentações que exploravam novas sonoridades, como o Se Rasgum. O artista explicou que foi resistente à união, mesmo tendo convivido de perto com as aparelhagens. 

“Dada minha vivência na cultura de aparelhagem, influenciado pelo meu irmão e pelas festas que frequentava, onde nomes como Tupinambá e Rubi eram proeminentes, essa experiência se tornou relevante. No entanto, minha mentalidade inicial, influenciada pelo underground dos anos 90, me levava a ter certas reservas em relação ao tecnobrega”, disse Black.

Com o tempo, a proposta evoluiu e ganhou novos contornos com a influência do trap, resultando no conceito do Trapnobrega, que busca unir referências globais a uma identidade regional. Segundo o artista, a intenção sempre foi construir uma sonoridade autêntica, capaz de representar o Norte do país dentro do cenário nacional. 

“Em 2013 e 2014, essa combinação ainda era pouco explorada. Muitos artistas se concentravam em produzir rap com influências do sul e sudeste. Buscando criar uma identidade musical nortista e autêntica, passei a experimentar a fusão do tecnobrega. Inicialmente, as reações foram diversas, mas com o tempo, outros artistas começaram a adotar essa abordagem”, contou.

O novo trabalho deve contar com cerca de cinco faixas e já teve dois singles lançados: Treme e De cima do mapa. Além disso, o artista também se dedica à produção de videoclipes e ao planejamento do lançamento oficial do projeto, previsto para ocorrer ainda no primeiro semestre. Paralelamente, Black integra o grupo Leões de Zion, que mistura rap e reggae, e participa de iniciativas culturais voltadas à valorização da cultura de rua em Ananindeua.

Com uma trajetória marcada pela resistência, experimentação e compromisso com a cultura periférica, TioBlack segue ampliando os horizontes do rap paraense. Ao apostar na fusão entre gêneros e na valorização das sonoridades locais, o artista reafirma o potencial criativo da Amazônia e contribui para o fortalecimento de uma identidade musical própria, conectada às vivências e às transformações da cena contemporânea.

Foto capa: @mdouzofficial

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