Breaking Dance no Pará: entre o asfalto das ruas e a cena olímpica

Por Gustavo Baima

Entre giros no chão, freezes milimetricamente calculados e batalhas que transformam praças em palcos, o breaking segue pulsando no Pará. Em Belém, sobretudo nas periferias, a dança que nasceu nas ruas de Nova York encontrou terreno fértil para se reinventar a partir das vivências amazônicas. Hoje, o Estado conta com crews, coletivos independentes e projetos sociais que mantêm viva a cultura Hip Hop e formam novas gerações de B-boys e B-girls.

O diretor técnico da Federação Paraense de Breaking (FPAB), Ismael Rodrigues, conhecido como B-boy Mael, explicou como a cena se organiza e resiste. Morador do Guamá, ele dança desde 2003 e carrega no currículo títulos e experiências internacionais. Integrante da Crew Amazon B-boys desde 2006, foi bicampeão brasileiro, em 2009 e 2011, representando o país em competições na Alemanha e na França. Além de competidor, atua como coreógrafo, artista e diretor técnico da Federação Paraense de Breaking, conciliando a prática com a pesquisa acadêmica.

Segundo Mael, a cena paraense vive um momento ambíguo: cresce, mas também resiste.

Foto: Arquivo Pessoal, B-boy Mael.

“Ela se encontra em crescimento através das novas gerações, principalmente por meio dos projetos sociais realizados em vários municípios do Estado, como no Marajó e em Parauapebas”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele observa um processo de renovação geracional que impacta diretamente as crews. Muitos dançarinos mais antigos direcionam a vida profissional para outras áreas, e o breaking acaba se tornando um “exportador de agentes culturais e artistas”.

Para o produtor, a transformação necessária passa por aspectos burocráticos e estruturais. O reconhecimento do breaking como esporte e o acesso mais democrático às leis de incentivo à cultura são pontos centrais para garantir a manutenção de eventos e atividades formativas. 

“Todo investimento em educação é de médio a longo prazo. Em 25 anos vivendo a cultura Hip Hop, nunca vi um período em que trabalho social e educação estivessem tão atrelados quanto agora”, destaca Mael.

Os desafios enfrentados pelas crews, no entanto, vão além da formação de novos dançarinos. Há entraves estruturais e culturais que dificultam a consolidação da cena. Nem todos os grupos conseguiram, ao longo do tempo, investir em oficinas e projetos sociais que garantissem renovação interna. Soma-se a isso a falta de apoio público efetivo.

“O break surgiu na rua, mesmo quando a rua não era um espaço de acessibilidade. Hoje, vemos o break tentando voltar para a rua, mas encontrando um espaço hostil para a dança”, pontua Mael.

Foto: Arquivo Pessoal, B-boy Mael

Ele cita a ausência de políticas públicas que assegurem espaços adequados para treino: pisos apropriados, bebedouros, tomadas para equipamentos de som e condições mínimas de permanência. Com isso, em uma cidade que inaugura novos equipamentos urbanos, a dança ainda disputa espaço físico e simbólico.

E como fica o esporte?

No campo esportivo, o breaking ganhou visibilidade internacional ao integrar o programa olímpico nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. O Pará chegou a ter um representante na disputa por vaga, único brasileiro com possibilidade real de classificação, mas que não avançou na última etapa. Para Mael, a ausência de destaque está diretamente ligada à falta de patrocínio contínuo. “Não faltam eventos, não falta qualidade. O que falta é investimento estruturado e trabalho social fortalecido dentro da cena”, analisa.

De olho no futuro, especialmente nas Olimpíadas de 2032, na Austrália, ele defende que o planejamento precisa começar agora. Apoio público para manutenção de espaços, incentivo à formação de base e políticas que aproximem marcas e agentes culturais são estratégias fundamentais para que o breaking paraense alcance novos patamares.

Mais do que competição, o breaking permanece como ferramenta de transformação. Para Mael, trata-se de uma prática necessária à sociedade, capaz de ajudar o indivíduo a extrair o que tem de melhor. No Pará, entre batalhas, oficinas e projetos sociais, a dança segue afirmando identidades, ocupando territórios e reivindicando protagonismo cultural.

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