Dos guetos americanos às periferias amazônicas
Por André Furtado
Estilo musical que tem como base o ritmo e a poesia, o rap é uma linguagem da cultura hip-hop que carrega consigo uma série de identidades, corpos e vivências, principalmente a da periferia. Os rappers trazem em suas canções temas sociais com letras rimadas que, ao som de batidas ricas em personalidade, levam para o mundo muito mais que sonoridade, mas um manifesto repleto de vivência, protesto e realidade do viver periférico.
Ao longo dos anos, o rap tem ganhado o mundo e chegado a diversos espaços, que vão desde as paradas de sucesso até os campos de pesquisa. Rafael Elias de Queiroz Ferreira conheceu esse estilo musical no bairro da Cabanagem, em Belém, em 1994, ano em que o Brasil conquistou o tetracampeonato mundial de futebol. De lá para cá, o rap se tornou não apenas um item obrigatório em sua playlist, mas um objeto de estudo. Professor de história, hoje no doutorado, Rafael é uma das principais referências acadêmicas quando o assunto é a cultura hip-hop.

O rap nasce no seio do hip-hop, uma manifestação cultural que utiliza diferentes linguagens artísticas para explanar a realidade vivida pelos moradores das periferias das cidades. Essa manifestação, de acordo com o historiador Rafael Ferreira, surgiu na região sul de Bronx, em Nova York, entre os anos 70 e 80 – época em que os Estados Unidos passava pela década do fogo, com grandes incêndios em prédios públicos abandonados.
O distrito de Bronx, que sofria com essa realidade, possuía uma população hegemônica negra, latina e afro-americana. Além disso, em função da migração caribenha, principalmente dos jamaicanos, o espaço começou a ter uma prática comum na Jamaica: festas de rua com grandes sons. E foi neste cenário que a cultura do hip-hop começou a ganhar força, denunciando as mazelas sociais.
No Brasil, os filmes tiveram um importante papel para a disseminação dessa cultura. Isso porque a indústria cinematográfica americana pegou elementos culturais urbanos e os transformou em linguagem para o cinema, fazendo com que a população reconhecesse, nas grandes telas, aquilo que já fazia no dia a dia.
“A gente começa a ver, no início dos anos 80, muitos filmes sendo produzidos sobre os grafiteiros que estão nos metrôs, sobre os dançarinos de break, sobre a música rap, sobre DJ, sobre discotecas. Quando esses filmes chegam, muita gente que fazia dança de rua (aqui em Belém chamava-se dança de robô), olha esses filmes e vê que já faz algo parecido”, detalha Ferreira.
Em Belém, por volta de 1984, o Cine Olympia colocava em cartaz a obra Beat Street; mas fora das salas já era possível notar elementos do hip-hop na cena urbana, com forte presença de regionalismo. A dança de robô e as batalhas de rima, organizadas por Shaira Mana Josy, nos anos 90, são exemplos.

Um dos primeiros grupos formados em Belém foram o Fator Contrários e o MBGC — Manos da Baixada do Grosso Calibre. “A galera que formou o Fator Contrários estava naquele circuito que se reunia para ver filme, depois ia pra praça debater e discutir. Apesar de ser considerado pioneiro por muita gente da música rap paraense, esse grupo não teve uma longevidade.
Então, quando a cultura do hip-hop já está consolidada, nasce um outro grupo, o MBGC. Eles gravaram músicas importantes, participaram de uma coletânea com uma música que faz uma crítica ao massacre do MST. O Fator Contrários é muito importante para mostrar que já tem grupo de rap em Belém nos anos 80. Enquanto o MBGC é muito importante, porque foi o grupo que mostrou ser possível profissionalizar a música rap “, detalha.
O rap produzido no norte do país é rico em diversos aspectos, a sonoridade é um deles. Aqui, as batidas se juntaram aos ritmos amazônicos e formaram uma melodia que difere de qualquer outra parte do mundo.
“A gente não está simplesmente fazendo igual, pelo contrário, tem toda uma releitura, um refazer de saberes, com experiências de vidas tipicamente amazônicas. Quando você isola os raps produzidos no Pará, você tem som, por exemplo, de carimbó. Isso mostra que a produção cultural, ela tá inserida intimamente ao seu ambiente”, explica Rafael.
Apesar de estar no Brasil há mais de quatro décadas, o rap, erroneamente, acaba sendo adotado como um sinônimo para o hip-hop, todavia há uma – grande – diferença. O historiador reforça que enquanto o hip-hop é consolidado um movimento cultural, o rap é um dos seus elementos. “Às vezes a gente escuta ‘ah, eu adoro ouvir hip-hop’, na verdade, o que se ouve é o rap. O hip-hop é uma manifestação cultural mais ampla que se expressa por meio daquilo que a gente chamaria de quatro elementos embrionários, que são o break, o grafite, o DJ e o MC que articulados produzem a música rap. Tem gente que defende a existência de um quinto elemento: o conhecimento”, enfatiza.
Ao longo dos anos, o rap passou a ganhar novos públicos e espaços. Em 2022, se consolidou como um dos gêneros mais ouvidos em todo o mundo, levando a realidade da periferia a ser escutada em diversas plataformas e conglomerados midiáticos.

A ponderação do pesquisador chama atenção para um detalhe importante na cultura hip-hop: os investimentos ainda são poucos. A cena que surgiu na Jamaica e ganhou força nas periferias americanas vem se reinventando, resistindo e espalhando, mundo afora, informação. Isso porque o rap é muito mais que versos e ondas sonoras, é formação social, psicológica, política e cidadã.
A entrevista exclusiva para a Revista Gabinete do Rap foi elaborada com informações do pesquisador Rafael Elias Mestre e Doutorando em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

