Da união das molecas, nasce o grime paraense
O projeto Elo das Mlks, construído por mulheres que comandam a cena do Grime em Belém do Pará, leva a força feminina para ocupar a cena do hip-hop
Por Brunna Silva
São nas margens que a cultura nasce e se dissemina; quem está à beira tem a visão do que o mundo precisa ver. Afinal, a margem entende as dores e a delícia de ser quem são e se une como um elo para expressar o que entala na garganta marginalizada. Foi assim que nasceu o hip-hop nas ruas suburbanas de Nova York. Mas também foi assim que surgiu o grime, nas vielas carentes de Londres, representando a vida nua e crua da cidade.
Os anos 2000 foram revolucionários e ditam “moda” até hoje. Nesse mesmo ano surgiu o grime, com batidas eletrônicas marcantes, vocais rápidos e representações ousadas da vida urbana, unindo a eletrônica ao hip-hop. Os homens dominavam a cena, assim como acontecia no rap. Mas quando o grime atravessa as águas amazônicas, aqui no Pará isso muda. São as molecas que tomam conta e se unem para reivindicar espaço na cena do hip-hop; com elas, BPM nenhum é capaz de medir a potência das manas.
Mas não é novidade que as mulheres sempre são colocadas em lugar de subalternas em todos os espaços que ocupam e, se quiserem mudar esse cenário, cabe a elas reivindicar com luta. E como lutar na cena? Mostrando que a canetada delas vem carregada de autoestima e autoafirmação.
A partir da sub-representação das manas no rap paraense e da necessidade de ocupar esses lugares, surgiu o Elo das Mlks. Anielle Tonika, conhecida como AfroTonni, é uma das precursoras desse projeto de grime em Belém, junto de outras manas. Ela conta o porquê de se consolidar no grime.

“Hoje o hip-hop é totalmente masculino, nós temos diversas chaves que são fechadas. Batalha de rimas com dezesseis MCs e nenhuma mulher. Então nasceu desse contexto de muita falta de oportunidade para as meninas cantarem […] Então as manas surgiram muito com essa demanda de “eu quero ser vista, eu não quero ser diminuída. E foi nesse momento que nasceu a ideia do “Elo das Mulecas” — AfroTonni, diretora do Elo das Mlks.
O Elo das Mlks é um projeto audiovisual de grime em que as manas juntaram suas forças e seus trabalhos no audiovisual, DJ, na fotografia e na sonorização para realizar a sessão de grime das molecas. E elas têm nome: Awazonia, Originalíssima Warasý e Luzz se uniram à AfroTonni e fizeram o elo ser firmado e, assim, outras vieram juntas, afinal só precisa de uma para erguer as outras, não é?
E assim surgiu essa Grime Session das molecas, um projeto totalmente independente que foi pensado e executado pelas manas e que já está disponível no YouTube para que todos possam visualizar a força que tem quando as manas se juntam. A session tem seis episódios e quem estrela em cada um deles são as MCs Ayra, Fernandinha, AfroTonni, Luzz, Lymma e Sara Nortx. Além delas, a captação ficou com a Awazonia, Ayra e Raissa Rodrigues.
“A gente faz muita coisa sem qualidade porque não temos recursos suficientes, mas se a gente se unir em um elo, a gente consegue entregar algo ainda melhor. Então esse foi o grande contexto do projeto. E as pessoas que estão por trás da criação do projeto são essas. Eram pessoas que não eram próximas, não tinham muito contato, mas aí eu fui unindo e a gente formou esse elo bonito.” — AfroTonni comenta.

No Elo das Mlks, o que se constrói vai além da música. É encontro de trajetórias que muitas vezes foram atravessadas pela ausência de espaço, mas que agora se reconhecem e se fortalecem umas nas outras. O “elo” é justamente isso: a junção das meninas, das mlks, das molecas — pessoas não binárias, mulheres cis, mulheres trans, mulheres LGBTQIA+ — que se unem não só para rimar, mas para existir com protagonismo dentro do hip-hop. Em uma cena historicamente marcada por exclusões, elas criam um território próprio onde uma puxa a outra e ninguém fica para trás.
As molecas paraenses periféricas paraenses são inteligentes, sagazes, insistentes, ligeiras, fortes, doidas, brabas e fazem o corre acontecer sempre. Como diz uma das vozes mais potentes da nova geração rap paraense, Ruth Clark, “as mana são as originais molecas doidas e as letras que as acompanham tornam isso cada vez mais real”.
E por falar em molecas safas, elas trazem todo um contexto no projeto. A sessão de grime foi gravada na casa da Luzz, no bairro Sacramenta, território conhecido pela luta por meio do Elo Perdido, uma das ocupações pioneiras da capital paraense que reivindicavam pautas como moradia digna e até hoje o bairro segue como símbolo de resistência.
Na letra das manas, elas trazem como repertório suas vivências enquanto mulheres de bairros periféricos, mulheres na luta de direitos basilares, manas resistentes do dia a dia dentro do contexto urbano. AfroTonni menciona que gravar no Elo fez o Elo das Mlks acontecer e solidificar essa união.
GRIME É ROCK DOIDO
E como tudo que chega no Norte recebe a força da cultura nortista, com o grime não foi diferente. As batidas envolventes das aparelhagens muito se relacionam e assemelham com a velocidade das batidas do subgênero do hip-hop. O ritmo frenético que o grime apresenta na sua originalidade também é um pouco rock doido. E se já era bom, nas mãos das molecas ficou ainda melhor!

“E a gente tem essa influência muito grande também pela música eletrônica; os nossos bregas são remixados e masterizados e reinventados pela música eletrônica de quebrada. O grime não seria diferente; a gente também tem essa aceleração que a gente encontra no grime, essa intensidade nas batidas, e alguns loops de beats que são utilizados no Rock Doido e na produção musical de Tecnomelody também são utilizados em beats de grime. Então, a gente já adaptou essa estética sonora justamente para a nossa realidade da periferia, já consome” — AfroTonni.
Mas não são apenas nos BPMs envolventes que rememoram as marcantes que o grime amazônico se encontra; o grime é amazônico porque reflete a realidade da periferia amazônica. Para Ayra, rapper, indígena da etnia Tupinambá, publicitária e produtora do Elo das Mlks, o grime amazônico é caracterizado pelas vivências relatadas pelas molecas dentro das letras.

“Por exemplo, eu que sou uma rapper indígena da etnia Tupinambá, eu gosto muito de citar os Encantados, eu cito o Boitatá, a Iara, que não é só um folclore, são de fato entidades em que a gente acredita, então eu acho que vai muito por aí, a gente tem uma vivência e a gente tem uma herança ancestral indígena, negra, que está intrinsecamente ligada à cultura amazônica e o grime é isso, é um improviso dentro de um beat que tu tá vivendo”, afirma Ayra.
E quando se fala quem é e traz as origens para dentro das letras, as molecas também afirmam a autoestima que existe dentro delas. O grime se torna uma peça responsável pela construção da autoafirmação feminina, mas também abre debates e questionamentos para “o que é o feminino na sociedade?”. O Elo das Mlks é um projeto feito por elas, mas elas não são o que a sociedade espera de feminilidade branca cisgênero; as molecas são a contramão do sistema.
“Esse é um projeto primeiramente idealizado por uma travesti negra, e é um projeto em que a gente tem mulheres pretas, trans, indígenas, pessoas não binárias, então são pessoas que são atravessadas por diversas violências ali no seu dia a dia. Então, a gente procura se afirmar, sim, com essa estética, mas também procura questionar esse conceito, né? Será mesmo que a gente quer estar dentro do conceito do que é feminino, desse conceito binário? Ou será que não seria melhor a gente quebrar isso?” — Ayra.

Num mundo onde as mulheres são entendidas como subalternas, entrar nessa luta ainda é revolucionário, e a única opção que resta é ser moleca doida e lutar com as armas que têm. E se a arma é a arte, que elas sigam fazendo com maestria. Ayra diz que os próximos passos do Elo são conseguir ainda mais visibilidade, que o projeto se torne cada vez maior para dar espaço a outras manas, dentro e fora da capital paraense, mas que, através da sua arte, elas também consigam se manter na cena e se manter em vida.
E é com a cultura paraense de ser moleca doida e atrevida que elas reivindicam espaço e respeito. É por meio delas que o grime se expande e toma forma através de quem sabe o que quer e como fazer para chegar lá. Para elas, o grime é a liberdade de ser quem é e expressar o que quiser. Foi com a garra das mlks que essa Grime Session visual nasceu. No Elo Perdido da Sacramenta, o elo das mulheres paraenses se firmou.

