Grime, Ballroom e resistência: a diversidade que movimenta o hip hop em Belém

Por Evelyn Ludovina

O hip-hop, historicamente marcado por uma presença majoritariamente masculina e por uma cultura muitas vezes masculinizada, consolidou-se por décadas como um espaço dominado por homens. Nos últimos anos, porém, esse cenário vem passando por transformações, com mulheres e pessoas da cena LGBTQIA+ conquistando cada vez mais espaço e protagonismo dentro do rap e da cultura urbana.

Nesse contexto, a cena LGBTQIA+ no rap também se fortalece como uma forma de enfrentamento à homofobia historicamente presente no hip-hop. É nesse cruzamento entre música, identidade e território que o grime, gênero surgido no leste de Londres e associado à juventude negra periférica britânica, passa a dialogar com outras periferias do mundo. Na Amazônia, o estilo encontra ressonância em vivências periféricas e queer, mostrando como a cultura urbana se reinventa ao atravessar diferentes contextos sociais e geográficos.

Em Belém, Amãporã Warasý, mais conhecida pelo vulgo Originalíssima Warasý, aprendeu a tocar grime de forma autodidata, assistindo a vídeos no YouTube. Hoje, leva o gênero para seus sets como DJ, onde também abre espaço para convidar outras artistas da cena. Para ela, o que está sendo construído é algo singular, uma mistura entre grime, música eletrônica experimental e elementos sonoros da Amazônia, mesmo diante da limitação de recursos.

A artista também compara o processo de reconhecimento do grime como parte da música eletrônica ao que já aconteceu com outros gêneros periféricos, como o funk, que por muito tempo foi marginalizado, e, mais recentemente, com o chamado “rock doido”, que vem ganhando visibilidade em diferentes circuitos culturais.

Foto: Acervo Pessoal, Originalíssima Warasý

“Em Belém tem muitas referências e eu acho que a gente tá construindo uma coisa muito única. Uma coisa que eu falo é que, mesmo isolados do Brasil, fazemos com o pouco que a gente tem e assim a gente tá se movimentando”, diz Warasý.

Esse movimento de construção coletiva também aparece em outras frentes da cultura urbana. Quando a cena do hip-hop se abre para a diversidade, ela se torna culturalmente mais rica e plural. Dimytrix, que atua como performer na cultura Ballroom desde a pandemia, experiência que, segundo ela, também a incentivou a se jogar nas batalhas de rima, destaca que ampliar o acesso e criar oportunidades dentro da cultura significa fortalecer diferentes territórios e vozes.

“A gente alcança vários territórios quando o respeito se eleva, quando alguém cria oportunidades também”, diz Dimy.

A presença da cultura Ballroom, inclusive, também atravessa as batalhas de rap. Surgido nas décadas de 1960 e 1970, em Nova York, o movimento social, cultural e político foi criado por pessoas LGBTQIAP+ pretas e latinas como um espaço de resistência, acolhimento e expressão. Organizada em houses (famílias escolhidas), a cena ficou conhecida pelas batalhas de voguing e pelos desfiles avaliados por jurados.

Warasý leva para a Ballroom aprendizados do hip-hop, especialmente a construção de autoestima e de caminhos dentro da cultura. Foi a partir dessa trajetória que conseguiu comprar seu primeiro notebook e se tornar DJ de batalhas da Ballroom, realizando o sonho de tocar, principalmente hip-hop.

Apesar desses avanços, ser uma pessoa LGBT produzindo hip-hop em Belém ainda é desafiador, especialmente diante da violência histórica contra pessoas da comunidade e mulheres dentro do meio. Todavia, mesmo em um espaço que muitas vezes nega ou dificulta a participação desses grupos, Dimytrix encontra força em outras MCs e DJs que se tornaram referências e inspiração. A artista também destaca que a cena de DJs dentro do hip-hop tem sido construída, em grande parte, por mulheres e por pessoas da comunidade.

“Não é apenas sobre música, é sobre representatividade, sobre contar histórias que antes não tinham tempo e nem espaço, como tem hoje. Mas mesmo assim, tendo esses espaços, ainda tentam nos calar ou tentam nos ferir de uma forma que nos afaste da cena”, diz.

Foto: Acervo Pessoal, Dimytrix.

Para Dimytrix, o crescimento e a visibilidade dessas mulheres ainda provocam reações de homens machistas, homofóbicos e transfóbicos dentro da cena. Segundo ela, muitas dessas resistências estão ligadas ao medo de perder espaço para artistas que chegam com novas narrativas, estéticas e experiências.

Diante disso, a artista reforça a importância do respeito e da criação de oportunidades dentro da cultura. Para Dimytrix, fortalecer a cena também passa por construir redes de apoio, onde artistas possam criar, circular e se expressar livremente, independentemente de quem sejam. “É sobre um apoiar o outro para que todo mundo consiga se levantar junto”, defende.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *